Ki-67 no câncer de mama: o que esse índice de proliferação realmente indica
Postado em: 02/06/2026

De todos os termos que aparecem no laudo de biópsia do câncer de mama, poucos geram tanta ansiedade imediata quanto um número: o Ki-67.
Ao ler “Ki-67: 35%”, a paciente vai ao Google. Encontra que Ki-67 mede a velocidade de crescimento do tumor. Lê que valores altos indicam tumores mais agressivos.
E chega a uma conclusão antes de chegar ao consultório, quase sempre uma conclusão pior do que a realidade clínica justifica.
O Ki-67 é um marcador importante. Mas ele não é, sozinho, uma sentença. Para entendê-lo com precisão, é preciso compreender o que ele mede, o que ele não mede, por que seus valores variam entre laboratórios e como o oncologista o interpreta dentro de um contexto muito maior do que uma porcentagem isolada.
O que o Ki-67 mede
O Ki-67 é uma proteína nuclear presente em células que estão em processo de divisão. Quando o patologista analisa o fragmento de tumor obtido na biópsia, ele usa uma técnica chamada imunohistoquímica para marcar as células que expressam essa proteína.
O resultado é expresso em porcentagem: se 20% das células analisadas estão positivas para Ki-67, significa que 20% delas estavam em fase de multiplicação no momento em que a amostra foi coletada.
Trata-se, portanto, de um índice de proliferação celular, uma fotografia instantânea da velocidade com que o tumor está crescendo naquele momento.
Esse dado é clinicamente relevante porque a taxa de proliferação influencia o comportamento biológico do tumor: tumores com alta proliferação tendem a crescer mais rápido e, em alguns cenários, a ter maior risco de recorrência.
Ao mesmo tempo, tumores com alta proliferação também tendem a ser mais sensíveis à quimioterapia, que age preferencialmente em células em divisão rápida.
Esse aparente paradoxo, maior agressividade, mas maior sensibilidade ao tratamento, é um dos pontos que mais confundem quando a informação é lida fora do contexto clínico.
Valores baixos e altos: o que significam na prática
Não existe um corte único e universal para definir Ki-67 como “baixo” ou “alto”. Esse é um dos limites mais conhecidos desse marcador e merece ser dito com clareza.
As referências mais utilizadas na prática clínica, baseadas nas recomendações do International Ki67 in Breast Cancer Working Group (IKWG) e no consenso de St. Gallen, adotam faixas aproximadas:
- Ki-67 abaixo de 5%: considerado baixo. Em tumores hormônio-positivos e HER2-negativos, esse valor está associado a um prognóstico muito favorável e, em geral, à não indicação de quimioterapia adjuvante.
- Ki-67 igual ou acima de 30%: considerado alto. Associado a maior proliferação e, em muitos contextos, à indicação de discussão sobre quimioterapia.
- Ki-67 entre 5% e 30%: a chamada zona cinzenta, onde o marcador, isoladamente, não resolve a decisão clínica. É nessa faixa que a integração com os demais fatores se torna mais importante.
Muitos laboratórios e serviços de patologia utilizam valores de referência próprios, como 14%, 20% ou 25% como ponto de corte, o que gera discrepância entre laudos de instituições diferentes.
A paciente que recebe um Ki-67 de 22% em um laboratório pode interpretar esse resultado de forma completamente diferente dependendo da referência adotada. Esse é mais um motivo pelo qual a leitura isolada do número não substitui a interpretação clínica.
As limitações que o laudo não explica
O Ki-67 tem utilidade prognóstica bem estabelecida, mas possui limitações técnicas que a comunidade médica reconhece, e que a paciente precisa conhecer para dimensionar corretamente o que está lendo.
Variabilidade entre laboratórios. O Ki-67 é um marcador contínuo, e seu resultado depende de variáveis pré-analíticas e analíticas: o anticorpo utilizado na coloração, o método de contagem (visual ou por análise digital de imagem), a área do tumor selecionada para análise e o número de células contadas.
Estudos do IKWG demonstraram variabilidade significativa entre laboratórios, especialmente na faixa intermediária, o que motivou esforços internacionais de padronização que ainda estão em andamento.
Heterogeneidade intratumoral. O Ki-67 pode variar dentro do mesmo tumor. A periferia de um nódulo pode ter proliferação diferente do centro.
O patologista seleciona a área mais representativa, frequentemente a de maior atividade (chamada hotspot), mas o resultado é sempre uma amostra, não um retrato completo.
Não é preditivo isoladamente. O Ki-67 alto informa que o tumor está proliferando rapidamente. Mas ele não responde, sozinho, se a quimioterapia será benéfica para aquela paciente específica. P
ara essa pergunta, outros fatores, como o subtipo molecular, o tamanho do tumor, o comprometimento ganglionar e, quando indicados, os testes genômicos, são necessários.
Ki-67 e subtipo molecular: por que o contexto muda tudo
O significado clínico do Ki-67 muda radicalmente dependendo do contexto em que ele aparece.
Em tumores hormônio-positivos e HER2-negativos, o Ki-67 é um dos marcadores usados para diferenciar o subtipo luminal A (baixa proliferação, excelente prognóstico, boa resposta à hormonioterapia isolada) do subtipo luminal B (alta proliferação, prognóstico menos favorável, possível necessidade de quimioterapia). Nesse cenário, o Ki-67 é peça central.
Em tumores triplo-negativos, que já são biologicamente agressivos por definição, um Ki-67 alto é esperado e não agrega o mesmo valor de diferenciação.
A questão nesses casos não é se a quimioterapia será feita, em geral, é indicada, mas quais protocolos e quais combinações serão escolhidos.
Em tumores HER2-positivos, a biologia é determinada primariamente pelo status do HER2, e o Ki-67 tem papel secundário na decisão terapêutica.
A mesma porcentagem de Ki-67, digamos, 30%, pode ter implicações completamente diferentes dependendo do perfil do tumor ao qual está associada. Esse é o ponto mais importante deste artigo: o número não fala sozinho.
O que acontece quando a paciente lê o Ki-67 antes da consulta
A pesquisa de doutorado da Dra. Anezka Ferrari, realizada com 392 pacientes com câncer de mama em acompanhamento ambulatorial em São Paulo, mostrou que 65,6% das pacientes acessam diretamente seus resultados de exames pela internet, e que esse hábito esteve associado a maior percepção de ansiedade.
No caso do Ki-67, esse fenômeno tem uma expressão particularmente aguda. Por ser um número, ele ativa no cérebro uma lógica comparativa automática.
A paciente lê seu Ki-67, busca valores de referência, encontra faixas divergentes, compara com relatos de outros casos em fóruns e redes sociais, e interpreta o resultado sem os demais dados que o oncologista usa para contextualizá-lo.
O resultado é uma ansiedade desproporcional à realidade clínica. Uma mulher com Ki-67 de 25% em um tumor luminal A, pequeno, sem comprometimento ganglionar e com receptores hormonais fortemente positivos, está em uma situação completamente diferente de outra mulher com o mesmo Ki-67 em um cenário clínico distinto. O número é o mesmo. O significado, não.
A informação em si não é o problema, o acesso ao dado é um direito. O problema é a interpretação isolada, sem o contexto que transforma dado em decisão.

Quando o Ki-67 não é suficiente: os testes genômicos como complemento
Exatamente porque o Ki-67 tem limitações, especialmente na zona cinzenta entre baixa e alta proliferação, foram desenvolvidos testes genômicos multiplex que refinam a avaliação de risco com maior precisão.
Testes como o Oncotype DX (que analisa 21 genes e gera um escore de recorrência) e o MammaPrint (que analisa 70 genes) permitem ao oncologista avaliar se a quimioterapia trará benefício real para aquela paciente específica, indo além da informação que o Ki-67 e os demais marcadores de imunohistoquímica conseguem oferecer.
Os dois maiores ensaios clínicos que sustentam essa prática, o TAILORx e o MINDACT, publicados no New England Journal of Medicine, demonstraram que uma parcela significativa das pacientes com tumores hormônio-positivos e HER2-negativos pode ser poupada da quimioterapia com segurança quando guiada por esses escores genômicos.
Esses testes não substituem o Ki-67: eles o complementam. E não são indicados para todas as pacientes. O oncologista avaliará se, no caso específico, o teste genômico é pertinente para resolver a incerteza que o Ki-67 deixou em aberto.
Em síntese
O Ki-67 é um marcador útil, bem estabelecido e presente em virtualmente todos os laudos de biópsia de câncer de mama. Ele informa a velocidade de proliferação do tumor e contribui para a classificação molecular e para a estratificação de risco.
Mas ele tem limitações reais, como variabilidade entre laboratórios, ausência de um ponto de corte universal, heterogeneidade intratumoral, e só faz sentido clínico quando lido em conjunto com os receptores hormonais, o status HER2, o grau histológico, o tamanho tumoral, o comprometimento ganglionar e o perfil completo da paciente.
A decisão terapêutica no câncer de mama é multifatorial. O Ki-67 é uma das variáveis dessa equação, não a resposta final.
Se o seu laudo menciona Ki-67 elevado e isso gerou preocupação, organize a análise com avaliação especializada.
Agende uma consulta com a Dra. Anezka Ferrari
Referências
- Rewcastle E et al. The Ki67 dilemma: investigating prognostic cut-offs and reproducibility for automated Ki67 scoring in breast cancer. Breast Cancer Res Treat. 2024.
- Nielsen TO et al. Assessment of Ki67 in Breast Cancer: Updated Recommendations from the International Ki67 in Breast Cancer Working Group. J Natl Cancer Inst. 2021.
- Sparano JA et al. Adjuvant Chemotherapy Guided by a 21-Gene Expression Assay in Breast Cancer (TAILORx). N Engl J Med. 2018.
- Cardoso F et al. 70-Gene Signature as an Aid to Treatment Decisions in Early-Stage Breast Cancer (MINDACT). N Engl J Med. 2016.
- Ferrari ACRC. Estudo de corte transversal sobre o impacto na saúde emocional de pacientes com câncer de mama causado pelo recebimento on-line de resultados de exames potencialmente sensíveis. Tese de Doutorado. Sírio-Libanês Ensino e Pesquisa; 2025.
- Andersen BL et al. Management of Anxiety and Depression in Adult Survivors of Cancer: ASCO Guideline Update. J Clin Oncol. 2023.
