Como melhorar a imunidade durante o tratamento do câncer: o que funciona de verdade

Postado em: 29/09/2026

A resposta curta incomoda, mas poupa tempo e dinheiro: não existe nada que “aumente a imunidade” no sentido que a internet promete.

O que existe é um conjunto pequeno de medidas com evidência consistente para reduzir o risco de infecção durante o período de maior vulnerabilidade, um grupo maior de coisas que são neutras, e uma lista curta de substâncias que podem atrapalhar o tratamento. Separar essas três camadas é o que muda desfecho.

Vale dizer de onde vem a confusão. A queda de defesa que acontece durante a quimioterapia não é um enfraquecimento difuso e permanente do organismo.

É uma redução previsível, temporária e mensurável de um tipo específico de célula. Entender esse mecanismo é o que permite agir no lugar certo.

O que “imunidade baixa” significa durante a quimioterapia

Os neutrófilos são os glóbulos brancos que fazem a primeira linha de defesa contra bactérias e fungos.

A quimioterapia age sobre células que se dividem rápido, e a medula óssea, que produz os neutrófilos, é uma delas. Por isso a contagem cai depois de cada ciclo.

Essa queda tem calendário. Segundo o Cancer.Net, portal de informação ao paciente da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, a contagem começa a cair cerca de uma semana após o início da quimioterapia e atinge o ponto mais baixo, chamado nadir, entre 7 e 14 dias depois do ciclo.

Depois disso, ela se recupera até o ciclo seguinte. Quando a contagem fica muito baixa, o quadro se chama neutropenia.

A consequência prática é que o cuidado não é uniforme ao longo do mês. Existe uma janela de risco maior, e é nela que as medidas de proteção importam mais.

Quem entende isso para de gastar energia com fórmulas genéricas e passa a agir no período que interessa.

O que tem evidência consistente

Este é o grupo que eu priorizo na consulta, porque é onde o esforço se converte em resultado clínico mensurável.

São medidas sem glamour, e é exatamente por isso que costumam ser ignoradas em favor do próximo suplemento da moda.

Exercício físico regular, inclusive durante o tratamento

A diretriz da Sociedade Americana de Oncologia Clínica publicada em 2022 recomenda exercício aeróbico e resistido para pessoas em tratamento de câncer não metastático.

Os desfechos com melhor evidência são redução de fadiga, melhora da função física e da qualidade de vida, e redução de sintomas de ansiedade e depressão.

Não é preciso começar por um programa ambicioso: caminhar de 15 a 20 minutos por dia, com progressão gradual, já entra na recomendação.

Adesão ao calendário de ciclos

Manter os ciclos na data prevista, na dose prevista, tem impacto maior do que qualquer intervenção de estilo de vida.

Atrasos e reduções de dose por efeito colateral não relatado a tempo custam mais do que a maioria das pessoas imagina. Relatar sintoma cedo, portanto, não é reclamar: é preservar o tratamento.

Vacinação planejada junto com a equipe

Vacinas contra influenza, pneumococo e covid-19 fazem parte do cuidado de quem está em tratamento oncológico, e a orientação vale também para quem mora na mesma casa, o que reduz a chance de a infecção chegar até a paciente.

O ponto de atenção é o tipo de vacina: as de vírus ou bactéria vivos atenuados são contraindicadas durante a imunossupressão.

O calendário precisa ser combinado com a equipe, porque o momento do ciclo influencia a resposta.

Proteína suficiente e segurança alimentar

A perda de massa muscular durante o tratamento piora fadiga e tolerância às drogas. Manter aporte adequado de proteína é o objetivo nutricional mais defensável do período.

Na janela de neutropenia, somam-se cuidados de manipulação: lavar bem frutas e verduras, evitar carne, ovo e peixe crus ou malpassados, evitar leite e queijos não pasteurizados.

Higiene das mãos e distância de quem está doente

Parece banal e é a medida com melhor relação entre esforço e proteção. Lavar as mãos com frequência, especialmente antes das refeições, e evitar contato próximo com pessoas resfriadas ou gripadas durante a janela de queda dos neutrófilos reduz exposição de forma direta.

O que tem evidência emergente, e merece cautela

Alguns temas geram interesse legítimo e ainda não têm resposta fechada. Apresentá-los como certeza seria desonesto, e ignorá-los seria fingir que a paciente não vai pesquisar sozinha.

A microbiota intestinal é o exemplo mais claro. Existe pesquisa consistente mostrando associação entre composição da microbiota e resposta a determinados tratamentos, sobretudo imunoterapia.

O que ainda não existe é um protocolo de manipulação da microbiota com benefício comprovado em desfecho clínico.

Probiótico de farmácia durante neutropenia, aliás, exige cautela adicional, porque envolve administrar microrganismos vivos a alguém com defesa reduzida.

A vitamina D segue o mesmo raciocínio. Corrigir deficiência documentada em exame é conduta razoável, por saúde óssea, sobretudo em quem usa inibidor de aromatase.

Suplementar sem dosagem, com a expectativa de melhorar a resposta ao tratamento, é outra coisa, e essa outra coisa não tem sustentação.

O que pode atrapalhar, e quase ninguém conta

Aqui está a parte que motivou este texto. A suposição de que suplemento “não faz mal, no máximo não faz nada” não se sustenta em oncologia, e existe dado de ensaio clínico para mostrar isso.

O estudo SWOG S0221, publicado no Journal of Clinical Oncology em 2020, acompanhou pacientes com câncer de mama inicial em quimioterapia adjuvante e comparou desfechos conforme o uso de suplementos relatado por elas.

O uso de vitamina B12 antes e durante a quimioterapia associou-se a pior sobrevida livre de doença, com razão de risco ajustada de 1,83, e a pior sobrevida global, com razão de risco de 2,04.

O uso de ferro durante a quimioterapia associou-se a pior sobrevida livre de doença, com razão de risco de 1,79.

Suplementos antioxidantes mostraram aumento limítrofe do risco de recidiva, com razão de risco de 1,41. Multivitamínico e vitamina D não mostraram associação com pior desfecho.

Duas ressalvas honestas sobre esse dado. É um estudo observacional dentro de um ensaio clínico, o que significa que ele mostra associação e não prova causalidade.

E ele não transforma vitamina B12 ou ferro em veneno: existem situações em que a reposição é necessária e indicada, como anemia ferropriva documentada.

O que o estudo sustenta é a recomendação dos próprios autores, que é de cautela com suplementos além de um multivitamínico durante a quimioterapia, e sempre com a equipe sabendo.

O mesmo raciocínio vale para chás e fitoterápicos. Vários competem pelas mesmas enzimas hepáticas que metabolizam quimioterápicos e hormonioterápicos, e podem alterar a concentração do medicamento no sangue para mais ou para menos. Nenhum dos dois cenários é bom.

Os sinais que pedem contato imediato

Neutropenia febril é emergência médica, não é assunto para a consulta da semana seguinte. Durante o tratamento, procure atendimento e avise a equipe diante de:

  • Febre, considerada a partir de 38 °C, mesmo sem outro sintoma;
  • Calafrios ou sudorese intensa;
  • Tosse nova, falta de ar ou dor ao respirar;
  • Dor ou ardência ao urinar;
  • Diarreia persistente ou dor abdominal;
  • Feridas na boca, dor de garganta importante;
  • Vermelhidão, calor ou secreção ao redor do cateter.

Uma observação que faz diferença: analgésico e antitérmico por conta própria podem mascarar a febre e atrasar o atendimento. Meça a temperatura antes de medicar.

Como eu organizo esse assunto na consulta

Eu peço que você traga a lista completa do que está tomando, incluindo o que veio de farmácia de manipulação, de loja de produtos naturais ou de indicação de conhecido.

Não é interrogatório, é segurança: sem essa lista eu não consigo avaliar interação.

Depois disso, eu costumo inverter a ordem da conversa. Antes de discutir o que acrescentar, eu verifico o que já está sob controle, que é exercício, sono, aporte de proteína, vacinas em dia e plano claro para o que fazer em caso de febre.

Na maior parte das vezes, é aí que existe espaço real para ganho, e não na prateleira de suplementos.

Perguntas frequentes

Posso tomar vitamina C durante a quimioterapia?

Vitamina C em dose alta entra na categoria de antioxidante, e é justamente esse grupo que apareceu com sinal de risco no SWOG S0221. A quantidade presente em frutas e na alimentação comum não é o problema. Suplementação em dose alta precisa ser discutida com quem conduz o tratamento, antes de começar.

Suco verde, própolis ou cogumelo medicinal ajudam?

Não existe evidência de que essas opções melhorem resposta ao tratamento ou reduzam risco de infecção. O risco não é apenas o gasto: alguns fitoterápicos interferem no metabolismo de medicamentos oncológicos. Se você já usa algum, informe à equipe em vez de suspender por conta própria.

Preciso ficar isolada em casa durante o tratamento?

Isolamento completo não é a recomendação padrão, e traz custo próprio em qualidade de vida. O cuidado é proporcional à fase do ciclo e ao seu esquema de tratamento. Evitar aglomeração e contato com pessoas doentes na janela de queda dos neutrófilos costuma ser suficiente na maior parte dos casos.

Posso me exercitar mesmo cansada?

Na maioria das situações, sim, e o exercício é uma das intervenções com melhor evidência contra a própria fadiga. A intensidade e o formato precisam ser ajustados ao momento, e existem contraindicações específicas, como plaquetas muito baixas ou lesão óssea com risco de fratura. Por isso a orientação é individual.

E se eu já estiver tomando um suplemento há meses?

Não suspenda por conta própria nem esconda. Traga a informação na próxima consulta, com a embalagem se possível. A conduta muda conforme a substância, a dose e a fase do tratamento.

Quando vale conversar

Se você está em tratamento em São Paulo e acumulou uma lista de suplementos que ninguém revisou, ou não sabe exatamente o que fazer diante de um episódio de febre em casa, esses são dois assuntos de consulta, não de busca na internet.

Revise sua lista de suplementos e seu plano para febre: fale com a minha equipe pelo WhatsApp e agende uma consulta.

Dra. Anezka Ferrari · Oncologista Clínica · CRM/SP 124895 · RQE 121013

Doutora em Ciências Médicas pelo Hospital Sírio-Libanês. Atuo com foco em câncer de mama em São Paulo.

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica.

Referências

Cancer.Net (ASCO). Neutropenia. https://www.cancer.net/navigating-cancer-care/side-effects/neutropenia

Ligibel JA, et al. Exercise, Diet, and Weight Management During Cancer Treatment: ASCO Guideline. Journal of Clinical Oncology, 2022. https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.22.00687

Ambrosone CB, et al. Dietary Supplement Use During Chemotherapy and Survival Outcomes of Patients With Breast Cancer Enrolled in a Cooperative Group Clinical Trial (SWOG S0221). Journal of Clinical Oncology, 2020. https://ascopubs.org/doi/abs/10.1200/JCO.19.01203

The ASCO Post. Dietary Supplement Use During Adjuvant Chemotherapy and Treatment Outcomes in Patients With Early Breast Cancer. https://ascopost.com/news/january-2020/dietary-supplement-use-during-adjuvant-chemotherapy-and-treatment-outcomes-in-patients-with-early-breast-cancer/

A.C.Camargo Cancer Center. Vacinação em pacientes oncológicos, calendário atualizado. https://accamargo.org.br/sobre-o-cancer/noticias/vacinacao-em-pacientes-oncologicos

Instituto Oncoguia. Vacinação para pacientes com câncer. https://www.oncoguia.org.br/conteudo/vacinacao-para-pacientes-com-cancer/13371/69/